terça-feira, 1 de abril de 2014

Ocaso Épico – Muito Obrigado (Dansa do Som, 1988)

sacar (ripado das masters originais por Pedro Barrento)

01. Tinto If
02. O Camelo
03. Cafécucerto
04. Da Beira Baixa à Extrema-Dura

05. Adamastor
06. Desoriental
07. Cortar ou Cortar-se

Farinha Master – voz, flauta, sintetizadores, guitarra, percussão electrónica, apitos, vocoder
Pedro Barrento – programação (máquina de ritmo e sequenciador)
Ricardo Machado – ferrinhos, percussões, chapas

Rui Mofreita – sintetizador, voz
Zé Nabo – baixo, coros
Alberto Garcia – bateria, timbalões, pratos 

Rui Fingers – guitarra
Ricardo Camacho – piano
José Carrapato – coros

produção – Zé Nabo

O ripanço de Muito Obrigado já circula há tanto tempo na internet que desde o início do blog me contenho perante a tentação de postar este único álbum dos Ocaso Épico. Mas os anos passam e, enquanto outros discos saltam do vinil para o CD, Muito Obrigado resiste ainda (e sempre?) à reedição, ao ponto de se tornar – talvez a par do LP do Corpo Diplomático – a mais notável lacuna no panorama digital do rock (é como quem diz) feito em Portugal. Confesso que também não me tem entusiasmado a ideia de escrever alguma coisa sobre os Ocaso Épico. Como fazer justiça a um músico – os Ocaso Épico eram, em boa verdade, Farinha Master – que se agigantou tão monstruosamente sobre tudo o que o rodeava enquanto foi vivo?
Acho que a dificuldade de falar sobre os Ocaso Épico, e a razão pela qual o muito que foi dito sobre eles ainda parece acertar um pouco “ao lado”, prende-se com o facto de não terem propriamente integrado esse movimento estético / musical efeverscente (o da chamada “música moderna portuguesa”, c.1986 – 1992) onde o costumam situar, mas antes de se terem constituído como um comentário a essa movimento, como se o Farinha olhasse por cima – e “de lado” - essa irrupção de criatividade desregrada e o surgimento de uma cultura urbana que, em muitos aspectos, era realmente inédita em Portugal. Só que, para mal dos seus pecados, o comentário do Farinha assentou numa intuição que lhe valeu bastantes inimizades junto dos protagonistas dessa movida, embora acerte em cheio no alvo: Tal como ele repetiu inúmeras vezes, “Portugal ainda é um país eminentemente rural” e a nova cultura urbana que emergia nessa altura era, afinal, uma expressão de novo riquismo e de urbanidade saloia feita por miúdos cujos pais tinham chegado da província há pouco mais de vinte anos. Enquanto a maior parte da malta se agrupava em tribos urbanas, cruzava referências musicais nos pregões do Blitz e se deixava fascinar com os alternativas e as vanguardas, o Farinha sorria sardonicamente e garantia que a solução não estava no Bairro Alto mas na macrobiótica e no misticismo oriental.
Claro que isto não se diz assim a seco, principalmente a miudagem que está entusiasmada com o que faz e que, em muitos casos, é realmente talentosa, mas o Farinha disse-o com todas as letras, e o Lado A de Muito Obrigado pergunta mesmo com insistência se vale a pena vir da Beira Baixa para a Estremadura, tentar ser gente da cidade quando se foi educado por gente do campo e se transporta todos os vícios de uma cripto-ruralidade mal resolvida (entre eles a subserviência que inspira o título e a capa do disco). No lado B, o recurso ocasional a sintetizadores planantes não serve para nos sossegar mas antes para garantir que não é pelo misticismo nacionalista que obtemos alguma espécie de redenção (“não há nem haverá o Quinto Império, nenhum mistério”), e que do nosso passado “épico” só guardámos os adamastores que nos mantêm congelados no mesmo sítio. “Cortar ou Cortar-se”, o último tema do disco, encontra o Farinha sem vontade de “esperar por quem deita o tempo a perder”, sugerindo meditação e realinhamento dos chacras como forma de libertação, mas deixa quem não tem propensão para a mística oriental a ver navios.
Não é de certeza à pala dos Ocaso Épico que Portugal vai aprender a sair dos ciclos intermináveis de marasmo e de “crises”, mas a visão do Farinha sobre este país continua – e hoje em dia com perturbadora intensidade – a iluminar os aspetos mais inconfessáveis da nossa paralizante saloice e a apontar alguns caminhos para quem quiser “ver o sol nascer noutro lugar”.

1 comentário:

adf disse...

Na altura do Dnmais o Nuno Galopim tinha uma rubrica chamada Discos Perdidos. Ainda devem faltar bastantes (englobava todo o tipo de música e editoras) mas recordo-me que já passaram para o CD discos como "Surrealizar" dos Ban, "Defeitos Especiais" dos GNR, "Hoje Há Conquilhas" da Banda do Casaco, "Alhur" de Né Ladeiras. Telectu e talvez mais alguns.

No blog tem o dos CD mas a tag passou a ser utilizada para outro tipo de discos http://sound--vision.blogspot.pt/2008/01/discos-perdidos-1-corpo-diplomtico-1979.html