quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Almanaque – Desfiando Cantigas (EMI, 1984)


















01. Chamarrita (Açores)
02. Cantiga do Entrudo (Beira Baixa)
03. Quadrilha (Douro Litoral)
04. Senhora da Saúde (Beira Alta)
05. Menino Jesus (Algarve)
06. Maia (Minho)
07. Rula-rula (Douro Litoral)
08. Chula (Douro Litoral)
09. Senhora da Rosa (Beira Baixa)
10. Reis (Minho)
11. Cantiga das Casadas (Beira Baixa)
12. Cesaltina (Alentejo)
13. Maruquinhas (Minho)
14. Alvorada (Trás-os-Montes)


Alcino Pacheco (canas), Ana Costa, António Lopes (bombo, caixa), António Prata (violão, bandolim), Celestino Clemente, Cristina Marques, Ester Correia, Fernando Gomes, Isabel Amaral, Isabel Bernardo, João Cavadinhas (violão), João Lima (violão, bombo), José Alberto Sardinha, Luísa Nora, Luísa Prates, Nuno Valente, Olinda Sardinha, Orlanda Baptista, Rita Mendes da Silva (bandolim, banjola, cavaquinho, guitarra portuguesa), Rui Costa, Sérgio Contreiras, Vítor Reino (viola braguesa, harmónio, concertina, flauta de cana, pandeireta), Wanda Sá
+
Miguel Coelho (violino), Paulo Marinho (gaita de foles)

Produção – Almanaque
Arranjos musicais – Vitor Reino
Direcção musical – Vitor Reino e José Alberto Sardinha

Alongar-me por mais de dois parágrafos em discos como este sem possuir um certo grau de erudição é estar mesmo a pedir para ser massacrado pelos musicólogos e etno-especialistas. Por isso, sinto-me tentado a referir os interessados para o texto que o Fernando Magalhães escreveu há uns bons anos, quando “Desfiando Cantigas” foi incluído no livro “Os Melhores Álbuns da Música Popular Portuguesa 1960-1997”, safando-me com isso de procurar termos técnicos na net ou de fazer um crash course em etnomusicologia. Mas não vai dar para não dizer nada, até porque o enigma que é para mim a figura de José Alberto Sardinha – naquela sua mescla de erudição purista, espírito missionário e megalomania a raiar o delírio – não me deixa estar assim tão quieto. O grupo por ele fundado, Almanaque, surge, como se sabe, como reacção contra a bastardização da música tradicional protagonizada pela sua folclorização, e pelo prolongamento dessa “folclorite” pela música ligeira – algo que já vinha bem detrás, quando o Estado Novo, depois de contribuir para o aniquilamento de grande parte da música cantada, tocada e dançada pelo país fora (principalmente a profana), quis cristalizar os seus resquícios em ranchos que a reduziam à versão bilhete postal. Mas, por outro lado, o Almanaque assume-se também como contraponto à apropriação que, principalmente a partir da Brigada Vitor Jara, alguns grupos fizeram da música de raiz popular, fabricando novos arranjos para temas tradicionais e contaminando as suas versões com outras linguagens (o jazz, a música improvisada, as músicas “étnicas” de outras paragens).
A proposta de Sardinha é uma espécie de terceira via: os músicos por ele reunidos no Almanaque pegam nas gravações de campo (gravadas, precisamente, no campo) e procuram reproduzi-las o mais fielmente possível em contexto urbano. À partida, esta abordagem purista parece ter poucas pernas para andar, denunciando mesmo um certo paternalismo para com os rurais, que seriam – tudo leva a crer – bons compositores mas maus executantes: “fabriquemos então aqui em estúdio um simulacro do que recolhemos no terreno, mas agora bem tocado”. Para além disso, a preocupação com as raízes genuínas da música tradicional, com os seus elementos mais autênticos e não contaminados, cai muito mal numa altura em que essa contaminação é celebrada e o próprio conceito de autenticidade é posto em causa. Com semelhantes pressupostos, parece um milagre, afinal, que neste disco (e no anterior) do Almanaque, a música surja tão viva. Longe de uma réplica estéril, ainda que polida e bem gravada, do original, Desfiando Cantigas acaba por ser a prova de que o trabalho de aperfeiçoamento e depuração dos originais “em bruto”, da procura das suas componentes mais autênticas e profundas, seja lá isso o que for, não pode deixar de ser também um trabalho criativo que – mesmo involuntariamente – resulta numa música tão nova quanto a dos grupos “híbridos” que Sardinha procurava contrariar.

4 comentários:

Edward Soja disse...

Muito obrigado por este!

Já conheço o Descantes e o Sementes, só me faltava este.

A ver se é tão bom como o primeiro (1979).

Sabia o amigo que o Descantes e Cantaréus chegou a conhecer edição em cd? (que é a que tenho)

Este não teve tal sorte... pois enquanto o outro era da Valentim de Carvalho, este enquadrava-se já noutra fase da editora, com outras preocupações...

(lembro-me do exemplo do Independança e do Defeitos Especiais (só editado em cd - finalmente!- em 2013), dos GNR, que tiveram o mesmo problema.

É que as editoras julgam ser proprietárias do que a todos pertence...

Macaco Silva disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Discos Com Sono disse...

Eu gosto mais deste do que do Descantes e Cantaréus, por acaso. E sim, sabia que o 1º foi reeditado em CD, justamente por isso é que não postei esse no blog. Há ainda um 3º chamado Sementes e assinado pelo "Grupo Almanaque", mas trata-se da facção cisionista do José Manuel David, não deste grupo do Sardinha e do Vitor Reino.

Edward Soja disse...

Sim,

este discos a precisar de um café bem que podia despertar o interesse ou fazer saltar a tampa das editoras proprietárias destes registos...

Mas isso era dantes, quando a venda de discos acontecia a ponto de dar muito dinheiro.

Esse Sementes também o tenho, mas nunca lhe liguei muito.

Outro, aliás, que não está em digital. Mas, digital ou em espiral, não está acessível a muita gente.

Lá está, se as pessoas estivessem interessadas em tê-lo acessível...

Obrigado pela pronta resposta.

Ideia para um livro: "1001 discos portugueses para ouvir antes de morrer. Se for português, claro."

Claro, este está lá.
;)