segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Pilar – Pilar (EMI – Valentim de Carvalho, 1989)



sacar

01. Cidade a Arder
02. A Voz
03. Senhora da Noite
04. Lágrima
05. Dentro
06. Lua no Olhar
07. Um Amor Assim
08. Princesa
09. Voz do Mar

Pilar – voz, guitarra eléctrica, guitarra acústica
Mário Laginha – piano, Roland D50, Yamaha DX7 II D, Kurweil
Yuri Daniel – baixo
Mário Barreiros – bateria, caixa de ritmos, guitarra eléctrica
Wayne Shorter – vento, percussão, shaker, Yamaha DX7 II D
Flak – guitarra acústica, guitarra eléctrica
Paulo Neves – caixa de ritmos

produção – Wayne Shorter

A indiferença deste país para com a Pilar é uma das coisas que me dá vontade de deixar de ser português. Como é possível passar ao lado desta mulher? A Pilar ama o 25 de Abril porque lhe permitiu passar a adolescência no Brasil. A Pilar convence o Wayne Shorter a produzir-lhe o primeiro disco e o Caetano Veloso a convidá-la para uma feijoada. A Pilar é casada com um pintor que foi ao Benim iniciar-se nos cultos vodu. E, como se isso não bastasse, os discos dela também não são nada maus. Este primeiro, por exemplo, tem três ou quatro canções capazes de fazer estremecer o mais inamovível coração do mais insensível brutamontes. Já vi homens feitos e barbados com o lábio inferior a tremelicar enquanto ouviam “A Voz”, “Dentro”, “Voz do Mar”, e o inevitável “Um Amor Assim” – favor verificar o teledisco.
Neste LP, a Pilar está luxuosamente acompanhada: para além de Wayne Shorter a produzir, tem Pedro Ayres Magalhães (02.) e Miguel Esteves Cardoso (04., 06.) a escrever, e Laginha e demais malta do jazz a tocar. A música é toda dela, à excepção de 03. e 04., que a Pilar compôs com a ajuda de Nuno Canavarro. Apesar do background jazzístico desta gente, os arranjos são surpreendentemente planantes e sintetizados, evocando por vezes os ambientes etéreos dos Dead Can Dance e chegando mesmo a aproximar-se dos terrenos pantanosos de uma Enya (Armando Teixeira faria um melhor trabalho quando produziu, anos mais tarde, “Não Quero Saber”). Mas a Pilar resiste a tudo isso e mantém acesa a chama cantautoral acima de todos os artifícios. Enquanto esperamos que ela volte de África com mais um disco (estava a gravá-lo há dois anos com músicos senegaleses), é ouvir em loop este primeiro álbum e os três seguintes – sem esquecer o CD ao vivo com a Anamar e a Né Ladeiras.

sábado, 13 de novembro de 2010

Rosa dos Ventos – Rimando Contra a Maré (Diapasão, 1983)



sacar

01. Cantiga de Amor
02. Canção Para Maria
03. Baladilha
04. Em Jeito de Sapateia
05. Novo Amanhecer
06. O Voo do Pássaro
07. Invenção
08. O Espanto das Caravelas
09. Feira Antiga, Feira Nova
10. Vai de Roda
11. Rimando Contra a Maré

Telmo Palma – viola da terra, viola eléctrica, harmónica
João Miguel – viola de 12 cordas, viola de 6 cordas
Tólis - baixo
José Medeiros – voz, adufes, piano, batuque, viola acústica, strings
Elisa – voz
Vera Quintanilha – voz
+
Sérgio Mestre – flauta, voz
Rabanal – bateria
Rui Vaz – adufes, percussão, gaita-de-foles, bombo
Mário Ribeiro – viola acústica
Pedro Casaes – contrabaixo
Ed – percussão, triângulo

música – João Miguel (01, 05, 06, 08, 09, 10); José Medeiros (02, 03, 04, 09, 11); Eduardo Paes Mamede (07)
letra – José Medeiros (01, 02, 03, 04, 06, 09, 11); Luísa Mareante (05); João Manuel (06); José Fanha (07); Fernando Reis Jr. (08); João Miguel (09)

produção – Eduardo Paes Mamede

Uma boa parte da produção musical do Zeca Medeiros já está ali em baixo, naquele disco que agrupa as bandas sonoras de O Barco e o Sonho, Balada do Atlântico e Xailes Negros. Mas, nessa altura, o homem não era propriamente um novato dessas lides: começara por editar dois singles em nome próprio nos anos 70, integrando na década seguinte os Construção (que editaram um álbum numa editora de nome suspeito, a DisRego) e estes Rosa dos Ventos.
Se bem que a banda seja definitivamente açoriana, “Rimando Contra a Maré” é um disco de produção continental, numa editora das grandes, com técnicos e convidados não-ilhéus (destaque para a flauta de Sérgio Mestre, em grande forma na maior parte dos temas). Também a música se afasta da reconstituição fiel das formas populares açorianas e se aventura sem medos em exercícios que, à falta de melhor termo, chamaremos de fusão. Sobre uma matriz tradicional, a coisa desenvolve-se em várias direcções, desaguando por vezes em afloramentos jazzísticos, outras numa linguagem pop-ligeira, outras ainda no ocasional solo de guitarra santanesco.
O que salta à vista é, essencialmente, a fluência dos membros da banda em todos estes idiomas, a relativa adequação entre as peças do puzzle musical e a eficácia com que um meio periférico produz um disco indubitavelmente moderno, inserido no seu tempo – sem dever grande coisa ao que os Trovante, por exemplo, faziam em Lisboa na mesma altura. “Rimando Contra a Maré” não é uma obra-prima mas, no conjunto dos seus temas, é mais sólido e equilibrado do que grande parte dos discos de raiz tradicional que surgiram pelos anos 80 fora. Ou seja, vale a pena o sacanço.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Heróis do Mar – Heróis do Mar (EMI – Valentim de Carvalho, 1988)



sacar

01. Rossio
02. Café
03. Africana
04. Santinha
05. Abril
06. Eu Quero
07. Eu Não Mereci
08. D.F.S.
09. Passeio
10. Dor de Cabeça

Carlos Maria Trindade - teclados
Pedro Ayres Magalhães – guitarra baixo
Paulo Pedro Gonçalves – guitarras ritmo e solo
Rui Pregal da Cunha – voz
+
Tomás Pimentel – trompete
Claus Nymark – trombone
Carlos Martins – saxofone
Nucha – voz (2, 4, 7, 10)
Cristina – voz (2, 4, 7, 10)
Waldemar Bastos – voz (3)
Fernando Carvalho – voz (3)
Marco Santos – voz (6)
Jorge Bento – programação rítmica (2, 3, 4, 5, 6, 7, 9, 10)

co-produção e misturas – Carlos Maria Trindade e Amândio Bastos

As minhas desculpas por esta prolongada preguiça blóguica. Já cá andava o ripanço dos Heróis do Mar há que tempos, aqui a fermentar no disco rígido, e eu não me decidia a fazer o post. Queria voltar a postar com elogios rasgados, e estava a ver se, com o tempo, as músicas soavam melhor, as letras pareciam mais bonitas, o scan da capa ficava mais nítido. A estratégia não resultou por aí além, mas vai mesmo assim.
A poucos dias do lançamento do último disco dos Madredeus e a Banda Cósmica, vem bem a propósito o último LP dos Heróis do Mar – não, não tenciono fazer comparações, não me pagam a fortuna necessária para ouvir o novo da cena gósmica. Mas o último disco de uma banda é quase sempre um objecto mal amado, um registo de um grupo de gente em fade out, esforçando-se por reunir energia que se dissipa demasiado rápido – e neste quarto LP dos Heróis isso é demasiado evidente. Claro que, no Portugal dos quase ‘90s, estes já não podiam ser os Heróis do Mar que puseram tudo em polvorosa no início dos ’80s, os provocadores que convocam a polícia de choque para o concerto de estreia, que berram na cara do Pátria o que não dava jeito nenhum ouvir naquela altura. Os ideais quintimperistas sobrevivem ainda na mona do Pedro Ayres, mas o resto da malta já quer zarpar para Inglaterra e trocar a alma atlântica pelas promessas da nova Europa – o baterista Tozé Almeida, substituído por uma caixa de ritmos, já tinha saído depois do “Macau”.
Na música, reflecte-se o desconchavanço: o trio de metais dá a muito necessária unidade a um conjunto irregular de temas, em que óptimas canções (Santinha, Abril) alternam com algumas das letras mais patetas de sempre (Rossio, Eu Não Mereci) enroladas em excessos de pedais nas guitarras e algumas digressões curiosas pela música africana.
No capa interior, Pedro Ayres Magalhães parece reconhecer que a banda estava a finar-se: “Missão cumprida stop. Povo conhece ideal pátrio stop”, mas apetece aqui dizer que a missão dos Heróis do Mar, fosse qual fosse, já se cumprira anos antes. O que Portugal precisaria a partir de então não sei bem o que era, mas para esse peditório os Heróis já tinham dado o que podiam.

domingo, 1 de agosto de 2010

Trovante – O Trovante Toca a Reunir (Forum, 1979)



sacar

01. A Tocar a Reunir
02. Não Há Três Sem Dois

Artur Costa – charamela, flauta, voz
João Gil – viola, voz
João Nuno – adufe, ronca, ferrinhos, voz
Luis Paulo – voz, bandolim, cavaquinho
Manuel Faria – acordeão, voz
Né – voz, pandeireta, castanholas

Letra – Chico Viana
Música e Arranjos – Trovante
Produção – Chico Viana / Trovante

Em 1979 aconteceu aos Trovante uma das melhores coisas que pode acontecer a uma banda em Portugal: entrou a Né Ladeiras para cantar. Os Trovante, que tinham já dois LPs politicamente engajados mas musicalmente contidos, estavam prestes a explodir para as massas com o “Baile no Bosque” e a fazer saltar milhares de semi-friques em várias Festas do Avante consecutivas. Infelizmente, a Né não se aguentou muito tempo. Seguiu logo depois para a Banda do Casaco e deixou só este single gravado com os Trovante.
No lado A, a letra de Chico Viana – prosador particularmente agradável ao Partido – canta a Maria da Fonte que, de corneta na mão, lança invectivas revolucionárias ao povo. Acompanha um adufe e uma flauta que dão uma toada quase medieval ao tema (digo eu, que não percebo nada do assunto). “Não Há Três Sem Dois”, no lado B, é uma malha ainda mais poderosa, capaz de arrastar multidões às costas de um acordeão hiperactivo. Será um corridinho? Uma chula? Ajudem-me, leitores eruditos, que agora dava-me jeito perceber alguma coisa de música. À falta de melhor, digo-vos que é como se os Pogues tivessem nascido 10 anos antes em Portugal e todos os seus membros fossem saudáveis e bem penteados. Mais coisa menos coisa.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Júlio Pereira – Mãos de Fada (Diapasão, 1979)



sacar

01. Abertura
02. Uma Chula P’ra Rosa e P’ra Gente
03. O Mundo na Mão de Mary
04. Os Cuidados de Laurindinha
05. Maria Negrita
06. Diz Teté, Se Viste Por Aí um Palhaço
07. A Xica e a Garotada
08. Paula Barraqueira
09. E a Zé Cantava na Ilha da Culatra
10. Mãos de Fada

Júlio Pereira – voz, guitarra acústica, bandolim, cavaquinho, concertina, bombo, reco-reco, xarango, baixo, banjo, chocalho, vibrafone
Maria Helena Davila – voz
Henri Tabot – guitarra acústica, ferrinhos, reco-reco, canas
Fernando Júdice – contrabaixo, baixo
Guilherme Inês – pandeiro, bateria, bongós, tumbadoras, caixinha de arroz, pinhas
Raúl Mendes – harmónica
Pedro Osório – piano eléctrico, acordeão
Rui Cardoso – saxofone, flauta, flauta transversal
Carlos Salomé – trancanholas
Naomi Anner – violino
Tomás Pimentel – trompete
António Lages – tuba
Moreno Pinto – ferrinhos
António Pinho – piano eléctrico
Zé Eduardo – contrabaixo
Elsa Bruxelas – flauta de bisel
Rão Kyao – flauta de cana, saxofone
Manuel Faria – acordeão

Arranjos e direcção musical – Júlio Pereira
Técnicos – Moreno Pinto, Jorge Mendes Barata
Misturas – Júlio Pereira, Jorge Mendes Barata

Depois do famigerado escândalo do post anterior, em que partilhei um disco já reeditado em CD, tento agora redimir-me com um fonograma já pedido por estas bandas, nunca reeditado em formato digital e nunca antes ripado (que eu saiba). É o último disco em que o Júlio Pereira acaricia os nossos ouvidos com a sua voz, antes de se decidir a sugar o tutano dos instrumentos tradicionais portugueses em discos que os espremem à vez (“Cavaquinho”, “Braguesa”, “O Meu Bandolim”) ou em grupo (“Os Sete Instrumentos”). No “Mãos de Fada”, esta panóplia instrumental já lá está, mas aqui ao serviço de canções sobre diversas mulheres que, calculo, cruzaram a vida do próprio Júlio. Os apetites do artista parecem ecléticos e cosmopolitas, tanto canta a Mary quanto a Maria Negrita, tanto enaltece a Paula Barraqueira quanto a Teté, a Mulher-Palhaço (esta última não percebo, mas pronto…).
Há aqui canções melhores do que no anterior Lisboémia, principalmente as que mais se inspiram em moldes tradicionais (“Uma Chula P´ra Rosa e P’ra Gente”, “Os Cuidados de Laurindinha”, “E a Zé Cantava na Ilha da Culatra”), mas torna-se difícil saltar e pulirar com elas perante o surrealismo involuntário de algumas letras: “Aqui vai mais uma chula que pula com a gente / Rapazes e raparigas não trouxeram pente”, “Anda por aí um palhaço / Diz lá onde é que o viste ó Maria diz / Talvez ó Manel num bagaço”, etc. Por outro lado, é precisamente esta veia lírica algo transviada que dá aos três primeiros discos do Júlio Pereira um certo charme e entusiasmo quase juvenil, uma toada lúdica que se perde nos trabalhos posteriores, em que domina o virtuosismo e a muito grave missão de resgatar as maltratadas tradições musicais do nosso povo. E é claro que a missão era grave e que ele a cumpriu de forma inexcedível, mas caramba, ó Júlio, parecias divertir-te mais quando também cantarolavas.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Saheb Sarbib & Jorge Lima Barreto – Encounters (Alvorada, 1979)



sacar

01. Talisman
02. Nightwings
03. A Canticle for Leibowitz
04. Stand on Zanzibar
05. City: Tomorrow the Dogs
06. A. Islands

Saheb Sarbib: baixo acústico e semi-acústico (02., 03.), oboé de plástico (01.), flauta clássica (04.), clarinete baixo (01.), etno-flautas (05.)
Jorge Lima Barreto: sintetizador ARP Odissey (todos os temas), piano eléctrico Fender Rhodes (01., 05.)

Gravação – Luis Alcobia
Montagem e Mistura – Luis Alcobia, Saheb Sarbib, Jorge Lima Barreto
Remistura e Direcção – Saheb Sarbib

Pois é, malta, como dizia a Laurindinha, it’s difficult listening hour. Descansem que “hora” é uma maneira de dizer, a coisa não chega aos 40 minutos e podem fazer uma pausa a meio para se refrescarem ou comer qualquer coisa. O que temos aqui é, que eu saiba, o segundo disco em que o Lima Barreto se fez ouvir, dois anos depois de ter saído o fonograma da AnarBand, em que toca com o Rui Reininho. Neste Encounters, o Reininho desaparece e surge em seu lugar o Saheb Sarbib, homem do jazz que tocou com Cecil Taylor e Archie Shepp, e filho de outro Sarbib que dirigiu big bands em Portugal nos anos 40 e 50.
Neste disco, o Sarbib é responsável pelas partes em que é preciso saber tocar – nalguns casos com resultados satisfatórios (a flauta em Stand on Zanzibar) e noutros com efeitos soporíferos (o solo de baixo em A Canticle for Leibowitz). Já o Lima Barreto não toca grande coisa, o que até pode muito bem ser um ponto a favor, a menos que o intérprete seja pura e simplesmente chato – o que é o caso. A estrela do desempenho limabarretiano são os vários registos que ele concebeu para o sintetizador ARP Odissey e que – segundo parece – patenteou na SPA (ou equivalente da altura): o registo psicokasbah de Nightwings, o libid de Talisman e principalmente o inconfundível cosmic felatio de A Canticle for Leibowitz.
Não estamos aqui para enganar ninguém e, verdade seja dita, Encounters tem momentos verdadeiramente irritantes, entediantes, exasperantes. Às vezes, esses momentos prolongam-se por temas inteiros. E às vezes esses temas inteiros têm mais de 8 minutos. Mas também há coisas boas de se ouvir: alguns registos (patenteados, claro) do Lima Barreto são realmente engraçados, o Sarbib toca realmente bem, as flautas dão quase sempre bom resultado, e o último tema, A. Island, é francamente porreiro. É dar uma hipótese aos velhotes, vá lá.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Mler Ife Dada – L’Amour Va Bien Merci / Ele e Ela… e Eu (Ama Romanta, 1986)



sacar

01. L’Amour Va Bien Merci
02. Ele e Ela… e Eu

Anabela Duarte
Nuno Rebelo
José Garcia
António Garcia

Produção – Nuno Rebelo

O estatuto sonolento deste disco, admito, é bastante duvidoso. Afinal, já se perderam a conta ao número de reedições do tema L’Amour Va Bien Merci, seja em compilações da Ama Romanta, dos próprios Mler Ife Dada ou de golden oldies dos anos 80. Não esquecendo que a canção já tinha saído no Divergências antes de sair em single. Mas pronto, para a juventude ignara, esclarece-se que é o tema que marca a entrada da Anabela Duarte nos Mler Ife Dada, que é o segundo disco da Ama Romanta, que toda esta malta ainda era amicíssima, pululante, fresca que nem uma alface, que ainda não tinha chegado a altura das zangas, das drogas duras e das depressões crónicas. É a banda sonora perfeita para o boémia burguesita da segunda metade dos anos 80, aquela que andava entre o Bairro Alto e o Rock Rendez Vous, que já tinha vomitado o boom do rock português e que tentava ser arty sem deixar de se divertir o mais possível.
Virando o disco, encontramos a razão deste post: uma versão nunca reeditada do tema Ele e Ela, que Madalena Iglésias levou ao festival da canção e que aqui leva um muito eficaz tratamento mlerífico, tongue in cheek q.b. mas sem entrar no gozo descarado. Mas o final deste tema é que me intriga. Ora oiçam a partir do 1m50s e digam-me o que é aquilo. Não é uma mini-versão de um mini-excerto do disco Clara Crocodilo do brasuca Arrigo Barnabé? Ajudem-me lá, caros clientes do Discos Com Sono, que estou sem pachorra para reouvir o Clara Crocodilo mas nem tenho dormido a pensar no assunto.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Shila - Doce de Shila (Diapasão, 1977)



sacar

01. Espectáculo
02. Chula
03. Doce de Chila
04. Mais um Filho
05. Entre a Flor e a Enxada
06. Rapa Tira Deixa e Põe
07. Parteira do Mar
08. Dança do Amargar
09. Rosie
10. Gente Assim

Shila – voz, auto-harp, dulcimer, percussão, colheres de pau
Fausto – viola, percussão, coro
Sérgio Godinho – viola, percussão, coro
Paulo Godinho – baixo
Manuel Guerreiro – flauta, saxofone soprano
Rui Monteiro – percussão
Rui Reis – piano
Guilherme Scarpa – bateria, percussão
Rui Cardoso – flauta
Júlio Pereira – viola, baixo, percussão
Carlos Zíngaro – violino
José Luis Simões – viola eléctrica
Eduardo Maia – assobiadoiro
Francisco Fanhais – coro
Geninha Melo e Castro – coro
Carlos Vaz – coro

Arranjos – Sérgio Godinho e Fausto (excepto 05. – Júlio Pereira)
Letras – Sérgio Godinho (01., 02., 03., 04., 06., 07., 08., 10.), popular (02.), Fausto (02.), Júlio Pereira (05.), Reinaldo Ferreira (09.)
Músicas – Sérgio Godinho (01., 03., 04., 06., 07.), popular (02.), Júlio Pereira (05.), Carlos Zíngaro (08., 10.), Fausto (09.)

Nos bons velhos anos setenta, fazer discos devia ser um grandioso forrobodó. Sempre que se queria gravar o belo fonograma (agora é melhor dizer assim, ou ainda não espreitaram a recém-parida Enciclopédia da Música Portuguesa?) era só chamar os amigos e, escreve-me aí uma letra que eu depois escrevo-te outra, faz-me um arranjo que eu depois te faço coros, toca-me aqui um reco-reco que eu depois toco-te uma concertina. O Sérgio Godinho levou a premissa um pouco mais longe, chamou o Fausto, o Júlio Pereira, o Zíngaro, e pediu uma letra, um arranjo e um reco-reco para o disco da namorada. A Shila era uma jovem saltitante vinda do Canadá, diz que boa rapariga, sem saber cantar muito bem mas entusiasta q.b. do ambiente revolucionário da altura e dos artistas que lhe serviam de banda sonora. Vai daí, engaja com o Sérgio Godinho, começa a fazer coros (típico), e enquanto o diabo esfrega o olho, já está a gravar o primeiro LP.
E é um belo LP, este fonograma. Começa um bocadito mal, com uma versão chocha e murcha do Espectáculo (que o Sérgio Godinho gravaria bem melhor dois anos depois, no “Campolide”), mas depois engrena com a Chula, e já ninguém segura a rapariga. A malta do costume faz a festa com bombos e ferrinhos, guitarradas e arranjos de cordas, enquanto a Shila canta naquele sotaque estranho mas esforçado. E ouvindo, por exemplo, “Rapa Tira Deixa e Põe”, há mesmo que lhe dar crédito: nunca uma canadiana enfiou tantas sílabas em tão poucos segundos (mas pronto, raras foram as canadianas que cantaram letras do Sérgio Godinho). Oiço por aí dizer que, na altura, a Shila levou muito nas orelhas, provavelmente da esquerdalha que não gostou de uma anglo-saxónica intrometida na sua revolução privada. Mas digo-vos que foi injusto e que a Shila só merece os nossos aplausos. Aproveitem que estão com a mão na massa e mandem-lhe uma beijoca.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Tão lindo

O João Chambel saiu da sua Pele Vermelha para me vir embonecar o blog. Estejam à vontade para tecer os mais rasgados elogios.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Linha Geral – Linha Geral (Ama Romanta, 1988)



sacar

01. Porque os Outros
02. Dança de Sombras
03. Formas Estranhas
04. Coro Jovem
05. Auto de Fé
06. Sinais no Tempo
07. Ousadia
08. Riscando os Céus

Carlos Manso – voz, guitarras
Fernando Soares – bateria
Tiago Lopes – guitarras
Pedro Alvim – baixo
+
Nuno Rebelo – piano, guitarra, sampler, coros
João Peste – coros

Produção – Nuno Rebelo

Vinte e dois anos passados sobre a sua edição, a sombra que o disco dos Linha Geral continua a estender sobre nós permanece um dos grandes enigmas da música pop feita em Portugal. São uns míseros 21 minutos de canções, uma banda que nem cinco anos durou, quatro músicos de que não se conhece o paradeiro. E todo um país (sim, todo) que sempre que os Linha Geral rodam no gira-discos, se põe de olhar vago não se sabe onde, a suspirar não se sabe porquê. Diz-se que a banda era comuna, revolucionária até, mas a verdade é que, nos Linha Geral, o que se ouve não é o panfletismo marxista do costume; a lírica inflamada e visionária do vocalista Carlos Manso não se compadece dessas coisas, e sempre que canta “a secreta caminhada”, “a hora prometida”, “o gesto decidido”, “o futuro que se anuncia” ou “a ilusão que se desvanece”, os corações atlânticos à beira-mar plantados reverberam de outras coisas que não somente a esperança na sociedade sem classes. Rasgando o rumo do futuro mas deixando-o por nomear, a banda alcança o efeito máximo – é preencher os espaços em branco e fazer a ponte entre a revolta proletária de um José Mário Branco e os sonhos de glória imperial de uns Heróis do Mar. Esta é a música que nos aguenta até ao Advento; seja ele o da Revolução, do Quinto Império ou da Segunda Vinda, o disco que vai estar a rodar nessa altura será o dos Linha Geral.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Clube Naval – Professor Xavier / Salva-Vidas (Fundação Atlântica, 1983)



sacar

01. Professor Xavier
02. Salva-Vidas (Mistura Muito Rica)
03. Salva-Vidas
04. Professor Xavier (Especial Para Dançar)

Godinho e Salema – voz

Música, Produção – Ricardo Camacho
Letras – Miguel Esteves Cardoso

Para estrear o bit rate de 320 temos um disco que é uma fofura. É o disco número um da Fundação Atlântica e, por muito que se embirre com a editora (aqui não é propriamente o caso), tem que se dar o braço a torcer perante os contornos épicos de uma primeira edição em duplo single – provavelmente o formato mais espectacular para se editar o que quer que seja. A natureza aparentemente fofa do disco, contudo, não nos pode fazer esquecer as salganhadas históricas da sua génese. Como se sabe, no início dos anos 80 um grupo de amigos fartos da hegemonia barbudo-marxista no meio musical decide adoptar uma postura assumidamente “à direita” e voltar a falar de Portugal com uma lata como há muito não se via. O fruto mais visível destas aventuras – cuja fascinante história ainda está por contar como deve ser – foram os Heróis do Mar, e logo a seguir a Fundação Atlântica.
Com o Clube Naval, Miguel Esteves Cardoso e seus comparsas decidiram deixar de lado a estética marcial de olhos arregalados ao céu que Pedro Ayres Magalhães adoptara nos Heróis, e optaram antes – talvez pela primeira vez na História – pela promoção descomplexada de uma identidade beta, que aqui toma forma nos corpos tenros de duas adolescentes do Estoril. As meninas cantam sobre a praia e o colégio – dois elementos basilares do luso-betismo – e queixam-se da indiferença do professor e do salva-vidas, podres de bons mas indiferentes aos seus coraçõezinhos. A ficha técnica indica que os temas são compostos por Ricardo Camacho, mas não esclarece quem os toca – salienta, porém, que as meninas são vestidas pela Tara e que “a cor mais linda é o azul”. Valha-nos isso. Ainda que a música possa não surpreender – electrónicas dançantes como se fazia no estrangeiro, remixes incluídos e tudo –, é aqui, neste casamento inusitado de uma estética proto-beta com uma insinuação algo rebarbada de despertar sexual lolitiano, que o disco do Clube Naval se torna um objecto sem igual. Sacanço obrigatório, portanto.

Um Luxo

Com 2010, a taxa de bits a que os Discos Com Sono são ripados passa a ser de 320 por segundo – a mais alta possível, portanto, um espectáculo. Boas notícias para os audiófilos, que passarão a ouvir a batata frita com uma qualidade inexcedível. Malta que consegue ouvir cores no Dark Side of the Moon, a partir de hoje este também é o vosso blog.