segunda-feira, 21 de abril de 2008

V.A. – Vidya (Potlatch, 1991)



sacar

19 temas sem título:

01. Vitor Rua
02. Vitor Rua
03. Telectu + Elliot Sharp
04. Saheb Sarbib
05. Telectu
06. Telectu + Carlos Zíngaro
07. Vitor Rua + Nuno Rebelo
08. Miguel Azguime
09. Vitor Rua + Paulo Eno
10. Vitor Rua + Miguel Megre + Rui Azul + Nuno Rebelo
11. Vitor Rua + João Peste
12. Vitor Rua + Sei Miguel + Luis Desirat + Rodrigo Amado + Fala Mariam +
Osso Exótico + Nuno Rebelo
13. Vitor Rua + Nuno Rebelo + Rafael Toral + Bruno Rascão + João Paulo Feliciano
14. Vitor Rua + TóZé Ferreira
15. Vitor Rua + Nuno Rebelo
16. Luis Desirat
17. Vitor Rua + Duplex Longa
18. D. W. Art
19. Vitor Rua

Telectu = Vitor Rua + Jorge Lima Barreto
Osso Exótico = David Maranha + Bernardo Devlin
Duplex Longa = Carlos Raimundo + Mário Jorge Resende
D. W. Art = António Duarte + Mané

Produção e Direcção Musical – Vitor Rua

Salvo erro, só pus os olhos neste disco na altura em que ele saiu e em que o comprei. Numa década e meia de peregrinação pelas lojas de segunda mão, nunca mais o vi nem de longe. A obscuridade acentua-se se tivermos em conta que foi o único lançamento da editora Potlatch (que, acho eu, era propriedade do Miguel Santos, agora em Londres ao serviço da Gulbenkian) e que ainda ninguém se parece ter dado ao trabalho de o digitalizar e partilhar criminalmente. Vidya foi um projecto de Vitor Rua que, ao longo de uns meses, foi gravando contribuições de músicos amigos e conhecidos, acrescentando as suas próprias e misturando tudo num caldo final em que os temas se sucedem sem títulos nem pausas entre as faixas. Em termos musicais, o resultado é bastante desigual, mas o principal interesse de Vidya talvez seja o facto de funcionar quase como um catálogo dos principais nomes do underground musical do início dos anos 90. Era uma época algo descaracterizada, em que a vaga da “música moderna portuguesa” estava a dar os últimos estertores e a pujança experimental passava, pouco a pouco, do domínio da pop para o da improvisação, electrónicas e quejandos. Mesmo João Peste, que contribui uns lamentos espectrais para uma das melhores faixas do disco (11.), abdica aqui do formato canção. Entre os outros temas que valem a pena, há Carlos Zingaro com Vitor Rua (6.), Vitor Rua com Osso Exótico, Sei Miguel e mais uns tantos (12.), Nuno Rebelo com Vitor Rua (15) e Miguel Megre, Nuno Rebelo, Rui Azul e – surpreendentemente – Vitor Rua (10.) numa versão chanfrada de Strangers in the Night.

domingo, 6 de abril de 2008

Anamar – Baile Final / Lágrimas (Fundação Atlântica, 1983)



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1. Baile Final
2. Lágrimas

Direcção Musical e Produção – Pedro Aires Magalhães

Para rematar esta primeira remessa de discos com sono, fica o 7’’ que Anamar editou em 1983 pela Fundação Atlântica, disco, aliás, que é destes três o que menos sono tem, porque já circula há algum tempo nas redes digitais de partilha criminosa de música. A história deste single é algo obscura: trata-se de duas canções retiradas daquele que teria sido o primeiro álbum de Anamar, “Cartas de Portugal”, um LP que nunca chegou a sair e que, segundo a própria Anamar, ficou “uma merda”. Não se sabe ao certo se nunca viu a luz do dia pelo seu elevado índice de merdice ou por qualquer outra razão, mas estas duas amostras dão-nos talvez uma ideia do que poderia ter sido esse “Cartas de Portugal”. É, no fundo, um produto típico da Fundação Atlântica, com Miguel Esteves Cardoso, Pedro Ayres Magalhães e Ricardo Camacho a tentarem criar, como era seu hábito, um ambiente que, por um lado, evocasse uma certa portugalidade e, por outro, não deixasse de apelar a referências musicais anglo-saxónicas (principalmente ao nível da produção). A voz de Anamar não dista muito daquela que podemos ouvir no MX-S editado quatro anos mais tarde pela Ama Romanta, escorrendo pelas canções naquela toada melíflua e desajeitada que, enfim, não deixa de ter o seu charme. Numa apreciação geral, são duas canções que se ouvem bem, mas suspeito que a pachorra não aguentasse um álbum inteiro disto. Fizeste bem, Anamar, em deixá-lo na gaveta.

Janita Salomé – Olho de Fogo (Transmedia/Schiu!, 1987)



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1. Os Amantes
2. Estrela Cadente
3. Poema
4. Azul Branco
5. Senhora do Almortão
6. Ao Passar Junto da Vide
7. O Zéfiro e a Chuva
8. Saias do Freixo em Gibraltar
9. Quando a Luz Fechou os Olhos
10. Cantata

João Lucas – piano, sintetizadores
José Peixoto – baixo, guitarra, percussão, sintetizadores
Irene Lima – violoncelo
Carlos Zíngaro – violino
José Mário Branco – percussão, sintetizadores
Janita Salomé – voz, taarija, adufe, bendir, darbuka
Vitorino - voz
Fernando Flores – contrabaixo
António Serafim – oboé
Tomás Pimentel – trompete, flugelhorn
José Carapeto – trompete
José Oliveira – trombone
José Martins – percussão, sintetizador
Paulo Curado – saxofone, flauta
Mónica Lapa – sapateado
Júlio Pereira – viola braguesa
Fernando Júdice – baixo
Acácio Pestana – trompa
A. Costa – trompa

De entre as pilhas de vinil português nunca reeditado, Olho de Fogo é com certeza um dos mais injustamente esquecidos, ao ponto de dar vontade de procurar os responsáveis por tamanha inépcia e pregar-lhes um par de estalos na cara. Em conjunto com A Cantar ao Sol e Lavrar em Teu Peito, é um dos discos em que Janita melhor explora o cruzamento entre a música alentejana e a do Norte de África, tornando-o numa espécie de tratado sonoro sobre a influência berbere no Alentejo. E, se bem que a tese esteja longe de ser consensual (ver, por exemplo, aqui)
, Janita é bastante eloquente a enunciá-la. Há que ouvir a versão fantasmagórica da Senhora do Almortão, com arranjos de Constança Capdeville, as Saias do Freixo em Gibraltar acompanhadas pelo sapateado de Mónica Lapa, o piano de João Lucas que acompanha Os Amantes, ou a combinação de sintetizadores e percussão berbere em Ao Passar Junto da Vide, para perceber que Janita Salomé estava aqui nos píncaros da criatividade, sem medo de misturar e explorar o que lhe desse na gana, sabendo que a música de raiz tradicional pode continuar a ter as raízes na tradição sem que os ramos se deixem de multiplicar em imprevistas direcções. No fundo, e independentemente das pretensões didácticas que Janita pudesse ter nestes discos do Alentejo árabe, o que fica não é o veredicto etnomusicológico sobre as origens da música alentejana, mas o prazer de ouvir um dos melhores discos feitos em Portugal.

Sei Miguel – Breaker (Ama Romanta, 1988)



sacar

1. Breaker
2. Thirsty?
3. The Mirror
4. Key Blues About Buildings
5. Non-Entity
6. I Never Talk to You
7. Blue Rose
8. Gate

Luis Desirat – bateria
José Ribeiro – baixo eléctrico
Bruno Rascão – guitarra eléctrica
Manuel Veiga – yamaha dx-21
Rodrigo Amado – saxofone alto
Fala Mariam – trombone de varas
Sei Miguel – trompete de bolso

Tal como os restantes discos de Sei Miguel, Breaker foi gravado ao vivo, neste caso no Teatro do Século, Ritz Club e Hot Club em finais de 1987 e inícios de 1988. À falta de registos dos Moeda Noise, a banda com que Sei Miguel começou a fazer música esquisita em Portugal, é por este disco que podemos começar a ouvir o seu percurso. Para mim, que nunca percebi o Sei Miguel, é difícil dizer algo inteligente acerca de Breaker – já seria difícil mesmo se o percebesse. O que salta à vista é que se trata de um disco menos austero que os actuais, com mais chinfrim e muito menos silêncio. A música parece mais amigável – deve ser a bateria do Luis Desirat que marca um ritmo constante (!) em vários temas – enquanto que os trabalhos da última década, pelo menos, exigem que escutemos a música com bastante atenção – o que, com tanta coisa gira a dar na televisão, é quase impraticável. Há também um Manuel Veiga que não sei quem é mas cujo sintetizador cai bem – uns tremolos quase constantes ao longo dos vários temas, a dar-lhes um ar meio fantasmagórico – uma sempre presente Fala Mariam e um Rodrigo Amado naquele que, salvo erro, foi o seu único registo com Sei Miguel. Comparando com os discos pós-Portuguese Man of War, em Breaker tudo parece correr mais solto, mais despreocupado, ainda sem aquela atenção ao pormenor e à precisão que caracterizam as obras posteriores. É um bocado como comparar o sóbrio Sei Miguel da actualidade com o Sei Miguel que salta e dança no videoclip do Querelle, dando o desconto do óbvio exagero.

Uma Nota Sobre o Ruído

A tarefa de digitalizar vinil confronta-nos quase sempre com um dilema: filtrar o ruído e abafar inevitavelmente a música (o que acontece mesmo com o filtro no mínimo) ou não lhe meter filtro e deixar a música como está, mesmo com a relativamente irritante batata frita. Também por aqui se pôs essa questão. Foi um processo doloroso, pautado por lágrimas e noites mal dormidas, que só terminou ao receber um mail de um amigo que salientava o seguinte: “a qualidade do próprio ruído de fundo piora drásticamente com o filtro, e não há nada pior do que um ruído de fundo surdo”. Evidentemente que só havia uma coisa a fazer: os discos que aqui surgirão não têm qualquer filtro anti-ruído, e a batata frita surge neles em toda a sua glória.

Primeiro Dia


Orai pelo pobre vinil preso no limbo dos discos descatalogados, ignorados pelo formato digital, a criar pó nas prateleiras dos coleccionadores. Que a sua música se liberte desse lugar de sombras e ascenda ao conhecimento dos nossos ouvidos. Assim seja.